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A resiliência para adaptação ao novo normal

 


As empresas brasileiras foram surpreendidas com o avanço da covid-19. A princípio, o cenário se caracterizava por uma tragédia humanitária, devido a limitação da quantidade de leitos de terapia intensiva, principalmente para a população mais idosa. Em seguida, as ações de resposta imediata dos governos, com medidas de isolamento social e o impedimento de abertura do comércio e de empresas não consideradas como primeira necessidade, acrescentaram uma perspectiva de tragédia econômica e social.

De um dia para o outro, apareceram restrições e necessidades não mapeadas: falta de pessoas, fornecedores, matéria-prima, aumento da necessidade de sanitização dos ambientes, entre outros. Rapidamente, as empresas tiveram que acionar os planos de contingência e continuidade de negócios (se existentes). Se esses planos não existiam, foram desenvolvidos, da melhor forma que foi possível, de forma de garantir a continuidade das operações.

Com o avanço da crise, observamos que muitas empresas que resistiam aos avanços tecnológicos, tais como, trabalho em casa, utilização de aplicativos para realizar entregas, vendas e comércio on-line, mudanças na linha de produtos para atender novas demandas (aumentar a oferta de álcool em gel 70%, por exemplo), entre outros, adotaram novas medidas de trabalho e de negócios. De outro lado, surgiu o aumento dos pedidos para prorrogação de prazo de pagamento recebido dos clientes e de antecipação de pagamento pelos fornecedores. As intervenções do governo e o apoio das instituições financeiras trouxeram um fôlego para o caixa. Medidas de negociação com a força de trabalho, como redução de jornada, antecipação de férias e outros, também devem proporcionar um fôlego adicional. De um jeito planejado ou improvisado, as empresas se organizaram para manter as suas operações.

Apresentamos a seguir um gráfico que ilustra as principais lições que acreditamos que as organizações aprenderam nas últimas semanas:

 

De todas as ações e lições, as mais importantes durante a crise são manter a operação dos serviços essenciais e a abertura dos canais de comunicação com clientes, fornecedores, colaboradores internos e externos. Posterior à crise, revisar os planos de resposta às emergências, plano de continuidade das operações e plano de gestão de crise. Se esses planos de resposta foram desenvolvidos durante a crise, a recomendação é que sejam revisados e formalizados, de acordo com o levantamento de cenários de catástrofe de cada organização. E no menor tempo possível, conforme a prioridade de cada organização.

Seguindo a evolução natural, esse período de crise vai terminar. Alguns estados já iniciaram a liberação ou divulgaram o cronograma de retorno às atividades.

Mas, como voltar à normalidade, se já não somos mais os mesmos e também os nossos negócios, clientes e fornecedores foram drasticamente impactados nas últimas semanas.

As complexas cadeias de suprimentos globais sofreram uma disruptura sem precedentes, com impactos definitivos e profundos. Podemos afirmar que algumas cadeias produtivas globais foram diluídas ou permanentemente destruídas.

Os modelos de gerenciamento de riscos, antes utilizados de forma mais sistemática por grandes corporações multinacionais, deverão ser incorporados aos modelos existentes de gestão de negócio de grandes, médias e pequenas nacionais. A avaliação de todo o universo de riscos, incluindo novas pandemias e cenários de negócios, farão parte do nosso dia a dia e serão essenciais no mundo do futuro.

Um outro ponto de mudança disruptiva foi a transformação digital das organizações, com aumento dos acessos remotos e o uso massivo de software de reuniões virtuais e a comprovação da eficiência desse método, o que deve reduzir, quando possível, o volume de reuniões presenciais e as viagens nacionais e internacionais.

Com o encerramento do período de isolamento social, a nossa resiliência pessoal e organizacional serão testadas. A resiliência é uma palavra de origem latina (resilens) e significa “voltar ao estado normal”. No âmbito corporativo, definimos resiliência como a capacidade das organizações de voltarem ao seu estado natural, principalmente após alguma situação crítica e fora do comum.

A pergunta que todos fazem é: em qual forma ou modelo as organizações devem voltar a operar? No primeiro momento, a tendência natural é que se volte a executar os processos usuais de negócios ou business-as-usual. Porém, antes do reinício, é importante desenhar cenários de perda de fornecedores essenciais, mudanças definitivas no perfil de consumo e, principalmente, mudanças no perfil do colaborador, sobretudo das grandes cidades, que pode ter sido transformado pelo aumento da qualidade de vida e produtividade geradas pela ausência do transito diário até o escritório físico.

Prevemos alterações importantes para a mobilidade urbana, transporte de passageiros e de carga nacional e internacional. Haverá necessidade de redimensionar redes de comunicação de dados e voz e revisitar os controles de segurança da informação e de tecnologia.

Apresentamos a seguir alguns pontos que deveriam ser avaliados antes do retorno ao chamado novo normal. Todas as análises deveriam ser baseadas em cenários de mudanças – positivo, moderado e negativo, conforme a realidade de cada organização e modelo de gestão.

Estratégico

  • Revisão do modelo de negócio
  • Revisão da demanda e das mudanças no perfil de consumo
  • Revisão da resposta à crise e proposição dos ajustes necessários
  • Renegociações de contratos e financiamentos

Pessoas

  • Avaliação das funções essenciais
  • Redimensionamento dos recursos necessários
  • Desenvolvimento de cronograma de retorno
  • Revisão do horário ou local de trabalho
  • Ajustes na infraestrutura e procedimentos de sanitização (segurança do trabalho)

Operações e processos

  • Identificação dos processos e procedimentos que não podem ser executados da mesma que eram executados antes da interrupção
  • Revisão de modelos de custos e eficiência operacional
  • Identificação dos fornecedores que perderam ou perderão a capacidade de fornecimento e mapear as alternativas de fornecimento

Tecnologia

  • Revisão do dimensionamento dos recursos de comunicações de voz e dados
  • Revisão dos requisitos de segurança da informação e tecnologia
  • Replanejamento dos investimentos necessários de curto e médio prazo

Após a escolha dos cenários, estabelecer um plano de comunicação a cada uma das partes interessadas - clientes, fornecedores, colaboradores, público em geral e acionistas -, informando eventuais mudanças ou impactos diretos e indiretos das mudanças impostas pelo cenário escolhido.

A mensagem é que enfrentaremos outras mudanças nos próximos meses e anos, até que todos estejam adaptados a essa nova realidade. Acreditamos que a situação pós covid-19 trará novas oportunidades de mercado ou negócios, mas, também, desafios e barreiras a serem superadas. Preparar-se com antecipação pode ser a vantagem competitiva frente aos concorrentes, que provocará a diferenciação para o seu produto ou serviço.